Agilidade Emocional: Entrevista

Fonte: Yahoo | Data: 01 de may, 2018

Fonte: Yahoo


Em 2017 a Amazon.com deu o prêmio de ‘Livro do Ano’ à obra ‘Emotional Agility’(Agilidade Emocional), que também venceu o prêmio ‘Livros para Uma Vida Melhor’ na categoria de Psicologia, e foi incluído na lista da Business Insider de ‘8 Livros que Irão Mudar a Sua Vida’. Quando observamos que 2017 também foi o ano em que a ansiedade e a depressão entre os trabalhadores atingiu níveis recordes, com quase um terço de diagnósticos a mais do que em 2013, o sucesso do livro faz muito sentido. Conforme nossa ansiedade cresce, nosso desrespeito em relação a livros de “autoajuda” diminui, e nós ficamos desesperados para obter conselhos terapêuticos, acessíveis, nesses livros. Escrito por Susan David, psicóloga de Harvard, com 20 anos de experiência, doutorado em psicologia clínica e pós-doutorado em “Emoções” em Yale, este livro é legítimo – e tranquilizador. Ele ajuda a remodelar sua ideia de sucesso e a quebrar padrões negativos de pensamento que estiveram com você desde a infância e estão limitando seu sucesso no ambiente de trabalho e em seus relacionamentos. ‘Emotional Agility’ é uma teoria com evidências psicológicas e, ao mesmo tempo, um guia prático, sobre como devemos lidar com nós mesmos.


Depois de lermos o livro, conseguimos conversar por telefone com a Dra. Susan David, que mora nos arredores de Boston, com sua família, e falamos sobre como lidar com emoções difíceis, como superar a insegurança, e por que estar de mau humor pode ser bom para você.


O que o termo ‘agilidade emocional’ significa?


Trata-se de tomar medidas que estão na direção dos nossos valores. Todos nós temos boas intenções em relação a quem queremos ser – em nossos relacionamentos, como pais, como líderes, no campo da nossa saúde – então o que nos impede de viver nossas vidas de acordo com nossas boas intenções? Bom, nossos pensamentos, emoções, histórias – as coisas dentro de nós criam um grande abismo entre nossas intenções e nossa realidade. Portanto, a agilidade emocional é sobre interagir com nós mesmos, desenvolver as habilidades necessárias para sermos bem-sucedidos num mundo estressante, desafiador e em constante mudança.


No livro você fala sobre ficar ‘preso’ em um pensamento. O que isso significa? Como uma pessoa fica ‘presa’?


Isso acontece quando não há espaço entre o estímulo e a resposta. Por exemplo, nós estamos numa reunião e nos sentimos prejudicados, por isso nos fechamos, ou nosso parceiro diz algo de que não gostamos e nós saímos do quarto – estas são formas particulares de reagir, e não respostas baseadas em escolhas. Ficamos ‘presos’ quando nossas ações são direcionadas por nossos pensamentos, emoções e histórias, e não por outras partes de nós mesmos, como nossos valores, intenções e quem realmente queremos ser, então, começamos a ficar dominados pelos nossos pensamentos, emoções e histórias de maneiras que não nos são úteis e que não nos ajudam. Muitas vezes, como crianças, ouvimos histórias sobre quem somos, no que somos bons, no que não somos bons, o que merecemos; recebemos estas mensagens de nossos pais, professores, e também da nossa cultura. Nossa cultura nos transmite mensagens sobre o que as mulheres são capazes de fazer e sobre o que não são. Nossa cultura transmite mensagens sobre o tipo de pessoa que nós deveríamos ser. As redes sociais nos dizem o tipo de férias que deveríamos tirar. Também podemos ficar ‘presos’ ao assistir televisão e nos sentirmos bravos com o que estamos vendo porque sentimos uma sensação de injustiça, e isso pode fazer você desabafar e ficar chateado em relação ao tema, mas sem realmente agir de acordo com seus valores. A definição de ficar ‘preso’ é quando você acaba ficando com raiva de uma forma que não é útil, e não permite que você personifique seus valores.


Como você se liberta destas fontes de obsessão?


Vivemos num mundo que nos diz que deveríamos ou não deveríamos sentir certas coisas, que nos diz que precisamos estar felizes o tempo todo, que deveríamos ter sempre uma atitude positiva, e aí começamos a nos julgar, por sentirmos emoções negativas, e não conseguimos entender que nossas emoções e nossos pensamentos são, na verdade, uma parte importante do que somos. As emoções que sentimos fortemente, são alertas de que valorizamos algo. Então, você começa a se libertar, primeiro mostrando suas emoções. Quando estamos presos às nossas emoções, fazemos uma das duas coisas: ou engarrafamos estas emoções e dizemos ‘Estou chateado, mas vou ignorar a situação ou a pessoa que me chateou,” ou alimentamos estas emoções, analisando-as incontáveis vezes, obcecando-nos, e nos sentindo vítimas. As duas abordagens parecem muito diferentes – uma está deixando as emoções de lado e a outra está transformando-as em uma obsessão – mas estas duas formas de reagir estão associadas a níveis menores de felicidade. Então, a primeira coisa é estar presente. A segunda é sair de dentro da emoção, por exemplo, rotulando-a. Muitas vezes, quando estamos chateados, nós dizemos “Ah, eu só estou estressado”, mas há um mundo de diferença entre o estresse e o aborrecimento, ou estresse e decepção. Por isso, rotular a emoção corretamente é muito importante. Depois, o terceiro passo é “despertar o seu porquê”, que significa ter a capacidade de pensar: “Quem eu quero ser nesta situação?” Em vez de: “O que a minha emoção está querendo que eu seja?” Em seguida, o quarto passo é seguir em frente e fazer mudanças na sua vida, de acordo com os seus valores, de acordo com quem você quer ser.


Uma coisa que faz com que eu, e muitas outras mulheres jovens, se sintam inseguras é a comparação com outras pessoas nas redes sociais: “A vida dela parece melhor do que a minha nas fotos, por isso ela é melhor do que eu”. Como a comparação social trabalha a partir de um ponto de vista psicológico?


A comparação social é um dos processos psicológicos mais tóxicos em que nos envolvemos. É algo muito, muito desafiador. Estamos começando a observar índices de ansiedade, depressão e suicídio cada vez maiores e há muitas razões para tal, mas uma delas é esta constante comparação social. Há um processo psicológico, muito sutil, conhecido como contágio social; todos nós já experimentamos isso; é como quando entramos num elevador e uma pessoa está usando seu telefone celular, então todos no elevador pegam seus celulares. Ou você entra numa reunião e uma pessoa está virando seus olhos de forma cínica, e aí todos começam a apresentar um comportamento semelhante. Como seres sociais, muitas vezes imitamos as outras pessoas sem percebermos. Imagine que você está tentando ser saudável, mas está num avião e a pessoa ao seu lado compra um chocolate – você tem uma chance 30% maior de comprar um chocolate, só porque o indivíduo ao seu lado comprou. O mesmo vale para o divórcio! Se alguém da sua rede de amigos se divorcia, você tem uma chance estatisticamente maior de se divorciar também. A comparação social e o contágio social aconteciam muito antes das redes sociais, mas agora estamos constantemente expostos a eles. Dez anos atrás você pode ter comprado uma revista e pensado que gostaria de ser como a celebridade na capa, mas nas redes sociais aquela celebridade se transforma em milhares de pessoas, surgindo constantemente, em diversas plataformas.


Como podemos nos proteger?


A ideia de ter valores pode parecer antiquada, mas se você tem uma ideia clara de quem quer ser no mundo, e do que é importante para você, isso pode protegê-lo do contágio social. Outra coisa que ajuda é ter compaixão por si mesmo – reconhecer que, sim, há pessoas nas redes sociais fazendo diversas coisas, mas você está na sua própria jornada, fazendo o melhor que pode com o que tem. Outra coisa que ajuda é reconhecer seus hábitos como usuário; por exemplo, se você está checando as redes sociais 50 vezes por dia, comece a entrar de forma mais consciente, em horários estabelecidos, e não como uma atividade feita sem pensar ou um mero reflexo.


Eu gosto dos valores, em teoria, mas o que fazer naquele momento que você sai de casa com seus valores, sentindo-se bem consigo mesmo, sabendo quem quer ser, mas aí você se vê numa situação – uma festa, por exemplo – e começa a se sentir inseguro, e tudo que você queria ser desaparece, e você só fica com aquela narrativa familiar de “não sou bom o suficiente”. O que podemos fazer para retomar o controle sobre nossas emoções em momentos como este?


Vamos supor que você está indo a um evento social, onde há pessoas que você quer impressionar, ou talvez seja um evento importante de trabalho, e o que acontece é que você entra naquela espiral, e sua mente diz “Eu não sou bom o suficiente, eu pensei que era, mas não sou”, e depois, talvez, você comece a se fechar, a parar de interagir, a ficar mais tímido, a não levantar sua voz mesmo quando você tem algo a dizer, etc. Este é um exemplo perfeito de um comportamento viciado, porque seus pensamentos, emoções e histórias estão direcionando suas ações, e não as suas escolhas. Para ser emocionalmente ágil nesta situação, primeiro você precisa perceber que está se sentindo pequeno. Identifique os pensamentos e não os ignore, não diga a si mesmo “Como sou idiota por estar tendo este pensamento, o que há de errado comigo?” Isso só fará com que você se sinta pior. Em vez disso, tenha compaixão por si mesmo e diga “Ok, este é um novo ambiente, há muitas novas pessoas”. Desta forma, você encara as suas emoções e depois sai de dentro delas, começa a lidar com elas, criando um espaço entre você e seus pensamentos, porque se você apenas disser a si mesmo “Eu não sou bom o suficiente”, começará a tratar esta opinião como um fato, mas se você perceber o que está acontecendo, entenderá que é apenas um pensamento, não é um fato, e aí você segue em frente pensando “Ok, estou tendo este pensamento, mas estou aqui para ver meus amigos, de quem eu gosto muito, e vou continuar a estar presente nesta conversa”, ou “Estou pensando que neste evento de trabalho eu não tenho nada a oferecer e sou uma fraude, mas estou aqui para fazer conexões, aumentar a minha rede de contatos e expandir meu conhecimento, e é isso que vou escolher fazer”.


Eu sempre penso que se eu fosse mais autoconfiante, todas as minhas inibições e problemas desapareceriam. Você acha que a autoconfiança tem algo a ver com isso ou a agilidade emocional é o que nos ajuda a navegar?


Eu acho que a ação tem tudo a ver, então quando você diz a si mesmo “Se eu fosse mais autoconfiante…”, está esperando por um mundo mágico, no qual não teve as experiências passadas que teve, onde seja o que for que abalou a sua autoconfiança no passado não existiu, e você está esperando que algo mude para que possa seguir em frente de forma eficaz. A autoconfiança não é algo que deve impulsioná-lo para a frente ou segurá-lo. O que deve impulsioná-lo são as ações que condizem com seus valores; em outras palavras, você ainda pode sentir uma falta de confiança e sentir que não é bom o suficiente, mas percebe todas estas coisas e consegue escolher fazer o que realmente importa na situação. O que vai acontecer é que a sua autoconfiança aumentará porque você não estará esperando os pensamentos ou as histórias irem embora, em vez disso, estará dizendo: “Os pensamentos estão aqui, as histórias estão aqui, mas eles não me dominam, eu os domino, e eu estou escolhendo me voluntariar para este projeto mesmo com medo, mesmo que não me sinta confiante, vou fazer isso”. É assim que você vive uma vida plena e significativa, onde sua autoconfiança cuida de si mesma.


É muito reconfortante perceber que são suas ações que direcionam sua vida, e não seus pensamentos…


É revolucionário. Nós temos milhares de pensamentos todos os dias, mas os pensamentos. em si, não importam; o que importa é você ser capaz de notar estes pensamentos, aprender com eles e escolher fazer o que realmente importa na sua vida.


Eu gostei quando você disse no livro que estar de mau humor pode ser benéfico. Você poderia falar sobre como as emoções negativas podem ser úteis para nós?


Nossa cultura diz que as emoções negativas são ruins. Na semana passada, fiz uma palestra no TED Women sobre como vivemos num mundo em que emoções normais e naturais são vistas como “boas” ou “ruins”, em que a felicidade é “boa” e a raiva e a tristeza são “ruins”. Nós vivemos num mundo em que ser positivo se tornou praticamente uma obrigação moral. As pessoas com câncer ouvem que devem ser positivas. As mulheres que estão bravas porque foram sexualmente assediadas ouvem que não devem se deixar afetar tanto. Mas as nossas emoções evoluíram para nos ajudar. Nós não temos emoções fortes em relação a coisas com as quais não nos importamos; se você tem uma emoção forte, ela indica que há algo importante por trás aquela emoção difícil, e se você se abrir para aquela emoção difícil, poderá aprender muito sobre si mesmo, sobre os outros, e sobre como você quer que as coisas mudem no mundo, e nos seus relacionamentos.


Quando você fala sobre sucesso no livro, dá o exemplo de um produtor de Hollywood que é objetivamente muito bem-sucedido, mas na verdade sua riqueza e estilo de vida luxuoso não lhe fazem bem, então ele doa muito dinheiro e começa a viver uma vida mais humilde, e se sente muito mais feliz desta maneira. Você acha que nós deveríamos começar a ver o sucesso de forma diferente, sem limitá-lo a chegar ao topo, ganhar muito dinheiro, casar e ter filhos?


Nossa sociedade tem uma versão muito particular do sucesso, e nós a incorporamos, sem percebermos; começamos a almejar uma determinada vida. Eu vejo muito isso na terapia, pessoas me dizendo, “Eu não posso acreditar que passei 20 anos num trabalho que odeio, mas fiz isso porque aprendi que isso era sucesso, e agora sou profundamente infeliz”. O que acontece é que, se não estivermos conectados conosco e com nossas emoções, podemos acabar num lugar onde seguimos um caminho e percebermos, horrorizados, que não queríamos estar naquele caminho. Como podemos começar a lidar com isso? O primeiro passo é nos abrirmos às nossas emoções. Quando começamos a sentir um certo desconforto ou uma dissonância, tendemos a ignorar esta sensação, mas é importante perguntar “O que isso está me dizendo?” Muitas vezes as emoções estão dizendo que o caminho que você está trilhando pode não ser o certo para você. Tom, um produtor de Hollywood, estava vivendo um determinado tipo de vida, mas começou a ter uma sensação de que aquilo não era o que ele queria, só que ele não mudou tudo de uma hora para outra, ele começou a ouvir seus valores e fazer pequenas mudanças, que reformularam a maneira como estava vivendo. Eu acho que, no final das contas, precisamos entender quem queremos ser no mundo e tentar criar uma conexão nesta direção. Podemos começar com diferentes ações, fazendo coisas que nunca fizemos antes, coisas que vão nos moldando de formas muito profundas, conhecendo novas pessoas, tendo novas interações, e assim nos sentiremos em consonância com o caminho que estamos tentando trilhar.


Você acha exaustivo trabalhar com as emoções?


[Susan ri] Não, eu adoro. Para mim este campo é incrivelmente fascinante.


Sarah Raphael  Refinery 29 UK